domingo, 20 de maio de 2012

Pontuações acerca do suicídio


PONTUAÇÕES ACERCA DO SUICÍDIO

 O ser humano vive de modo ambivalente os mistérios da vida e da morte. Os psicanalistas devem familiarizar-se com o par de antitético vida e morte, que empresta cores vivas ao pano de fundo, no proscênio do encontro com seus pacientes.
O medo da morte, sentimento nodal que se origina a angústia humana desperta nos estudiosos (onde se incluem filósofos, poetas e psiquiatras) ao mesmo tempo inegável fascínio pelo assunto, resultando suas obras de incontestável utilidade a quem se propõe tratar ou promover saúde a pessoas à beira da descompensação.
Entre as características do homem, apresenta-se a conscientização de que um dia falecerá, resultando diferentes esforços para prolongar ou abreviar a vida.
O suicídio tem em sua gênese diferentes motivos. Vale enfatizar o sofrimento em que se agiganta a dor; o avassalamento pela culpa; perdas irreparáveis; o desmoronamento do mundo idealizado, que se transforma e engrossa o universo perseguidor.
Estudar o fenômeno do suicídio é pensar, a princípio, na interrupção do ciclo vital da pessoa humana de forma auto-inflingida. É um ato autodestrutivo, sua ocorrência se dá nas mais variadas faixas etárias e nas diferentes culturas, sendo registrado desde os primórdios, na Antigüidade, na era cristã, na renascença e na contemporaneidade.

1. UM BREVE HISTÓRICO

A palavra suicídio é derivada do latim: sui (si) e caedes (matança), e na sua passagem para o português manteve o significado de “morte voluntária”, mas teve incorporado ao significado o sentido de crime contra si mesmo.
O ato de matar a si mesmo ou até mesmo a outrem sempre esteve presente na história da humanidade desde os tempos mais remotos. O suicídio foi adquirindo significado e função de acordo com a época e civilização em que este ato de dar fim à própria vida foi acontecendo.
Embora este trabalho seja em psicanálise, não poderia deixar de citar Émile Durkhein, o fundador da sociologia e autor do livro O Suicídio, de 1897, concluiu que o ato de matar a si mesmo é um fenômeno social e não se deve à teoria da hereditariedade, conforme se acreditava, na época. Este estudo permitiu que o suicídio passasse a ser considerado como uma patologia. Durkhein considera que o suicídio como manifestação de um ato individual é, em sua essência, social, na medida em que o homem vive em sociedade e está atravessado por tudo aquilo que ela produz; sua individualidade é uma produção cultural construída na sua relação com os diversos produtos desta cultura e define o suicídio como “todo ato positivo ou negativo praticado pela própria vítima, desde que a mesma saiba dever produzir este resultado”. A partir do século XIX o suicídio foi então encarado como um ato solitário que difere da vida em sociedade, normalmente interpretado como sendo um ato produzido por um indivíduo descontente.

2. CONSIDERAÇÕES SOBRE O SUICÍDIO EM PSICANÁLISE E A PROBLEMÁTICA DA MELANCOLIA

No tocante ao suicídio, Freud participou, em 1910, do primeiro simpósio sobre suicídio de escolares secundaristas. Nesta oportunidade, ele diz que as escolas devem conseguir mais do que não compelir seus alunos ao suicídio; devem lhes dar o desejo de viver, oferecendo-lhes apoio e amparo numa época da vida em que as condições de seu desenvolvimento os levam a afrouxar seus vínculos parentais.
Ao término do simpósio, Freud esclarece que apesar do rico material exposto, não havia chegado a uma decisão sobre o problema. Manifesta curiosidade em saber como seria possível para o suicida driblar a poderosa pulsão da vida?  Afirma então que isto só é possível com o auxílio de uma “libido desiludida”, ou, se o ego renunciar à sua autopreservação, por seus próprios motivos egoístas. Apesar de Freud, nesse breve artigo não explicitar o que tinha em mente ao se referir a uma “libido desiludida”, acreditamos que tal expressão se esclarecerá em 1917 no texto Luto e Melancolia, importante artigo, no qual ele acentua estar presente na base da melancolia um forte desapontamento com relação ao objeto. Desapontamento esse que implica uma retirada da libido desse objeto. Nesse contexto, chega a se referir a essa situação dizendo que “a relação objetal foi destroçada”. (Freud, S. 1917, p. 254).
De início, Freud propõe certa aproximação entre a melancolia e a anestesia (sexual) tecendo alguns curiosos comentários sobre essa relação. Não nos aprofundaremos nessas articulações, porém gostaríamos destacar a correlação apontada por ele, entre melancolia e anestesia, ou seja, entre a melancolia e uma certa perda de sensibilidade.
Logo a seguir Freud propõe uma correspondência entre a melancolia e o luto, afirmando: “O afeto correspondente à melancolia é o luto, ou seja, desejo de recuperar algo que foi perdido”. (Freud, S. 1895/1996, p.247).  Vê-se, pois de saída que em ambos os casos trata-se de uma reação à perda.
Tomando o luto como exemplo para se pensar melancolia, Freud acrescenta: “deve tratar-se de uma perda – uma perda na vida pulsional” (Freud, S. 1895/1996, p. 247). Ainda nesse breve rascunho, propõe uma outra articulação para a melancolia. Dessa vez ele a aproxima da anorexia, ou seja, da perda do apetite, que nesse contexto, traduz em termos de perda da libido, lançando a idéia de que “a melancolia consiste em luto por perda da libido” (Freud, S. 1895/1996, p. 247). Freud conclui este artigo afirmando que na melancolia ocorre uma perda da libido através de um buraco na esfera psíquica. A perda da excitação provoca uma “retração para dentro” (Freud, S. 1895/1996, p. 252) na esfera psíquica sugando a excitação. A retirada da libido vai operar encobrindo, como uma “ferida”, num modo semelhante ao da dor.
Ora o que Freud nos diz é que o sujeito ao queixar-se da dor, desvia-se do verdadeiro foco que lhe causa sofrimento, já que essa retirada o impede de realizar associações.
Para este trabalho, o que realmente interessa destacar é a “perda do apetite”, entendida como perda da libido, e a “perda da sensibilidade”, assinaladas por Freud. Afinal, essas duas características que apesar de não esgotarem a problemática do suicídio, estão diretamente associadas a ela no sentido metafórico: “falta de gosto pela vida”.
A teoria freudiana toda vez que compara a melancolia com o afeto normal do luto, evidencia que em ambos trata-se da perda de um ente querido ou da perda de alguma abstração que ocupava um lugar idealizado. Em algumas pessoas, as mesmas influências produzem melancolia em vez de luto, isso leva Freud a suspeitar de que essas pessoas possuem alguma disposição patológica anterior que faz com que a perda adquira proporções tão sérias.
No tocante a essas duas reações face à perda, vale precisar que quando a libido está investida em algum objeto amado e este por alguma razão é perdido, é preciso que haja um dispêndio de energia e tempo para ocorrer o desligamento desse investimento. Todo esse processo de desligamento tem como objetivo prolongar, durante certo tempo, a existência do objeto perdido. Em se tratando do luto, a libido vinculada ao objeto paulatinamente desligar-se-á, e ao final o ego estará novamente capacitado a relançar seus investimentos. Já a melancolia apresenta outras características que Freud resume nos seguintes termos:
Os traços mentais distintivos da melancolia são um desânimo profundamente penoso, a cessação de interesse pelo mundo externo, a perda da capacidade de amar, a inibição de toda e qualquer atividade, e uma diminuição dos sentimentos de auto-estima, a ponto de encontrar expressão em auto-recriminação e auto-envilecimento, culminando numa expectativa delirante de punição. (Freud, S. 1917/1996, p.250).
Em Luto e Melancolia de 1917, Freud faz uma teoria bastante complexa destacando sobre a melancolia a problemática da perda do objeto. Neste texto, logo de saída, diz que para ele o sonho está para a paranóia assim como o luto está para a melancolia. Em ambos os quadros clínicos encontram-se uma forte inibição, acompanhada de uma perda de interesse pelo mundo externo, efeito do retraimento dos investimentos libidinais. Sendo que a inibição melancólica se revela mais enigmática do que a do luto, pois na melancolia não se pode ver com nitidez o que absorve tão completamente o sujeito. Ainda marcando uma diferença entre o luto e a melancolia, Freud assinala que na melancolia se faz presente uma extraordinária diminuição da auto-estima, ou seja, um notável empobrecimento do próprio ego. No processo do luto é o mundo que se torna pobre e vazio, já na dinâmica da melancolia é o próprio ego que se revela esvaziado.
Freud enfatiza que no quadro do luto, a perturbação da auto-estima está ausente. Nele a inibição e a circunscrição do ego estão diretamente relacionados à perda de alguém (ou algo) que era alvo de um amor muito idealizado.
Para Freud o processo da melancolia se desdobra em três etapas. Primeiro haveria a escolha de um determinado objeto, um vínculo erótico sendo estabelecido entre o sujeito e o objeto idealizado; depois sob influência de uma forte decepção, essa relação fica abalada e o objeto é perdido dando lugar uma profunda hostilidade. Em reação a essa perda, ao invés da libido abandonar o objeto e buscar um investimento, ela se retrai para o ego, que enigmaticamente se identifica com o objeto outrora amado, doravante odiado.
Na escuta dos pacientes melancólicos Freud percebeu que apesar de ter havido uma perda relativa ao objeto, o que o paciente relata “aponta para uma perda relativa a seu próprio ego” S. 1917/1996, p.253. Calcado nessas constatações Freud postula que na melancolia:
A sombra do objeto caiu sobre o ego, e este pode, daí por diante, ser julgado por um agente especial, como se fosse um objeto abandonado. Dessa forma, uma perda objetal se transformou numa perda do ego, e o conflito entre o ego e a pessoa amada, numa separação entre atividade crítica do ego e o ego continua alterado pela identificação. (Freud, S. 1917/1996, p.254-5).
As auto-recriminações feitas ao ego, na verdade, são dirigidas ao objeto e significam a vingança do ego sobre ele. Identificação e ambivalência estão, portanto juntas desde o início.
Uma parte do ego se revela modificada pela introjeção e contém o objeto perdido, enquanto uma outra parte, o ideal de ego, exerce as funções de censura, consciência moral e auto-observação; revelando aí, uma divisão do ego. O desejo de vingança e o ódio em relação ao objeto perdido podem expressar-se desviados para o ego do próprio indivíduo. À medida que esse ódio se desenvolve, pode surgir o desejo de matar esse objeto enquistado no ego, o  que  pode até mesmo acarretar o suicídio do melancólico.
Segundo Freud quando o indivíduo chega a se matar, está, na realidade, matando em si o objeto um dia amado, mas que devido a uma forte decepção se tornou alvo de uma hostilidade. Cabe ressaltar que no âmbito da melancolia Freud situa o suicídio como um desdobramento oriundo da identificação do ego com o objeto perdido, objeto esse que sofreu uma transformação na qual passou de objeto idealizado para um objeto odiado, ou seja: a catexia erótica do melancólico em relação ao objeto tem dois caminhos: enquanto uma parte retorna para identificação, a outra é influenciada pelo conflito devido à ambivalência, voltando à etapa do sadismo. Uma vez estando esse objeto enquistado, no eu do indivíduo, e ser a esse objeto, que é a hostilidade endereçada, que se pode dizer que o suicídio é na verdade um homicídio: ele tenta matar o outro em si.
Freud diz: “de há muito, é verdade, sabemos que nenhum neurótico abriga pensamentos de suicídio que não consistam em impulsos assassinos contra os outros, que ele volta contra si mesmo”. (Freud, S. 1917/1996, p. 257).
É importante ressaltar que nesta época ele não havia desenvolvido a teoria da “pulsão de morte”, supunha que tudo era regido pelo “princípio de prazer”. Só em 1920, quando publica o artigo “Além do Princípio de Prazer”, é que Freud desenvolve sobre uma dimensão pulsional distinta ao princípio do prazer. Neste texto ele postula uma nova dualidade pulsional: pulsão de vida e pulsão de morte. Dessa forma a pulsão de morte torna-se também o princípio da vida psíquica e afirma que:
A tendência dominante da vida mental e, talvez da vida nervosa em geral, é o esforço para reduzir, para manter constante ou para remover a tensão interna devida aos estímulos (o ‘princípio do Nirvana’ para tomar de empréstimo uma expressão de Bárbara Low), tendência que encontra expressão no princípio de prazer, e o reconhecimento desse fato constitui uma de nossas mais fortes razões para acreditar na existência dos instintos de morte. (Freud, S. 1920/1996. p. 66)
Sendo assim, ele identifica a pulsão de morte ao princípio de Nirvana e encontra no princípio de prazer uma expressão desse princípio agora fusionado a pulsão de vida. Isto é, uma energia que no início era livre que buscava a descarga total deve ser “dominada” e “contida” por meio de um processo que Freud denominou ligação, sob pena de levar o pequeno ser, de forma imediata, à morte. Logo, as pulsões de morte existiriam concomitantemente desde o início, e associadas, as pulsões de vida que impediriam sua plena manifestação:
Se, portanto, não quisermos abandonar a hipótese das pulsões de morte, temos de supor que estão associadas, desde o início, com as pulsões de vida. Deve-se, porém, admitir que, nesse caso, estaremos trabalhando com uma equação de duas quantidades desconhecidas. (Freud, S. 1920/1996, p. 67).
Num momento mais avançado, revê sua teoria e reconhece que na melancolia o ego admite sua culpa sem objeção alguma, submetendo-se ao castigo porque está identificado com o objeto. O superego dirige sua ira com violência contra o ego como se tivesse se apossado de todo o sadismo disponível na pessoa. Sadicamente o instinto de morte acentuou-se no superego e voltou-se contra o ego. O que passa a influenciar o superego é a cultura do instinto de morte, que obtém êxito em impulsioná-lo à morte caso ele não se afaste a tempo para a mania. De acordo com Freud, o medo da morte só tem uma explicação:
O próprio ego se abandona porque se sente odiado e abandonado pelo superego, ao invés de amado. Para o ego, portanto, viver significa o mesmo que ser amado – ser amado pelo superego, que aqui, mais uma vez, aparece como representante do id. O superego preenche a mesma função de proteger e salvar que, em épocas anteriores, foi preenchida pelo pai e, posteriormente, pela Providência ou Destino. (Freud, S. 1923/1996. p.70).
              No que se refere ao tema do suicídio, nos interessa pensar quais fatores determinam que alguns indivíduos apesar de todas as dificuldades que a vida apresenta, conseguem se sustentarem psiquicamente, enquanto outros, no auge da vida, se desestruturam e chegam ao suicídio. Quantos lutam pela vida e quantos outros buscam a morte! A esse respeito cabe indagar o que a psicanálise pode fazer por essas pessoas?
Lacan nos ajuda a esclarecer alguma questão desse assunto tão enigmático como o suicídio. E em seu Seminário X, 1962/ 1963, “A Angústia”, propôs um conceito diferenciado para ato, acting out e passagem ao ato. O acting out é alguma coisa que se mostra principalmente na conduta do sujeito que, segundo Lacan, deve ser observada. Além de não falar em seu nome, o sujeito não sabe o que está mostrando, nem tampouco reconhece o sentido daquilo que lhe é desvelado. É ao analista, que é conferido o trabalho de decifrar, de interpretar os argumentos.
Assim, o acting out é uma transferência, ainda que o sujeito nada demonstre. Entretanto, algo escapa ao recalque sem que seja possível alguma lembrança. É, portanto, uma demanda de simbolização onde o sujeito, em busca da verdade, realiza o que não pode ser dito por falta de simbolização.
No percurso de uma análise, o acting out é sempre sinal de que a condução do tratamento está, por causa do analista, em um impasse, revelando o fracasso deste, porém, não necessariamente, sua incompetência. Não deve ser interpretado, mas, modificando sua posição transferencial, ou seja, sua escuta, o analista permite ao paciente mudar sua posição subjetiva e superar essa conduta de demonstração. Em seu Seminário sobre angústia, Lacan assim define o acting out:
O acting out é essencialmente, mostra, mostruário velado sem dúvida, mas que não é velado senão para nós como sujeito, enquanto isso fala, enquanto isso poderia ser verdadeiro, não velado em si, visível ao contrário, maximamente, e por isso, em um certo registro invisível. Mostrando sua causa, é esse resto, é sua queda, é o que cai no negócio que é o essencial de ser mostrado.  (Lacan, 23/01/63).
Segundo Lacan, a passagem ao ato ocorre no momento que o sujeito é confrontado radicalmente com aquilo que ele é: como objeto para o Outro. Reage a isso impulsivamente, movido por uma angústia incontrolada e incontrolável. Identificando-se com esse objeto que ele é para o Outro, “deixa-se cair”. A passagem ao ato produz-se para o sujeito no momento que este é confrontado com o desvendamento intempestivo do objeto a que ele é para o Outro. Acontece sempre no momento de grande embaraço e de extrema emoção, quando, para ele, é impossível qualquer simbolização. O sujeito ejeta-se e oferece-se ao Outro como lugar vazio do significante, como se esse outro, houvesse se tornado, para ele, imaginariamente, encarnado, pudesse gozar com sua morte. Portanto, a passagem ao ato é, um agir impulsivo, inconsciente, e não, um ato.
Ao contrário do acting out, na passagem ao ato não há endereçamento a ninguém. Nenhuma interpretação é esperada, mesmo quando ocorre em um tratamento analítico. É necessidade de amor, de reconhecimento simbólico, sobre um fundo de desespero. Demanda feita por um sujeito que só consegue vivenciar-se como um dejeto a evacuar. Está situada do lado do irreversível. É sempre ultrapassagem da cena, além do real, uma ação impulsiva da qual a mais comum consiste na defenestração. É um jogo cego e negação.
Para Lacan o ato constitui única possibilidade pontual para que um sujeito se inscreva simbolicamente no real desumanizante. É, constantemente, a repulsa de uma escolha consciente e aceita, entre a castração e a morte, uma revolta contra a divisão do sujeito.
É importante ressaltar, que existem algumas tentativas de suicídio que são atos de um sujeito pedindo ajuda e que nesse sentido seriam actings. Muitas vezes a morte ocorre por um erro de cálculo do sujeito, que talvez não estivesse tão decidido a suicidar-se quanto poderia parecer à primeira vista. Outras tentativas seriam mais bem entendidas como passagens ao ato, no sentido de que não há aí um endereçamento ao Outro e sim uma queda do sujeito à posição de objeto, como assinalou Lacan em seu seminário sobre a Angústia.
 
3 ALGUNS FRAGMENTOS CLÍNICOS NA OBRA DE FREUD

Aqui vamos ilustrar com alguns casos cujas outras motivações foram citadas por Freud para estudo.
O suicídio de um dos pacientes de Freud, o perturba a ponto de levá-lo a cometer um clássico lapso, nota-se a referência “depois que recebera certa notícia”, e novamente, “lugar onde a notícia me chegou”  – ao fato, só esclarecido em nota de rodapé do editor numa edição posterior de um primeiro texto a respeito sobre o célebre esquecimento de Signorelli. (Freud, S. 1898/1996, p. 279).
Em 22 de setembro de 1898 (na carta 96), Freud relata a Fliess o que ocorrera e, 27 de setembro, portanto cinco dias depois (carta 91), que enviara o artigo para publicação, mas só três anos depois se fica sabendo que “um paciente, a quem se havia dedicado muito, suicidara-se por causa de uma perturbação sexual incurável”. Fato este esclarecido em nota de rodapé.  (Freud, S.1901/1996, p. 279).
Já no primeiro volume, em “Observação de um Caso Grave de Hemianestesia em um Homem Histérico” encontramos: “O paciente foi acusado de roubo por uma mulher, teve palpitações violentas e, por uns quinze dias, esteve tão deprimido que pensou em suicídio”. (Freud, S. 1886/1996).
Em outros casos clínicos, também idéias ou ameaças de suicídio são referidas quando comunicadas pelos pacientes e usadas como indicadores prognósticos, pois acrescidas de avaliação de “seriedade”.
No um importante texto chamado Psicopatologia da Vida Cotidiana, Freud dedica o capítulo VIII ao suicídio e auto-agressões inconscientes, vemos Freud dividido entre razões egoístas e sacrificais. Inicialmente, estas últimas são apresentadas como causa geral de um grande número de equívocos na ação:
São atos sacrificais destinados a placar o destino, afastar a desgraça, assim por diante(...). Dessa maneira, nossos atos falhos nos permitem praticar todos costumes piedosos e supersticiosos que são obrigados a evitar a luz da consciência devido à razão, agora incrédula. (Freud, S. 1901/1996, p. 178).
Freud passa a incluir, o suicídio e suas tentativas como equívocos da ação. Em sua obra, transcreve alguns casos participados por outros autores que passamos a resumir:
O primeiro é de um militar que, posteriormente à morte da mãe apresentou quadro depressivo demonstrando ao mesmo tempo o desejo de participar de uma guerra na África, que Freud conclui como sendo uma “intenção consciente de suicídio, não obstante, evita o caminho direto”. (Freud, S. 1901, p. 184), e o medo de montar a cavalo, seria provocado pela intenção inconsciente de autodestruição. Mesmo o fato de ele ter sido um “cavaleiro esplêndido”, não pôde evitar a participação em uma corrida que lhe custou a vida.
O segundo caso mencionado foi narrado por Ferenczi com uma tentativa inconsciente com arma de fogo. “J. Ad” teria sido abandonado pela amada que “por pura cobiça emigrara para a América”, dois meses antes e, depois de ter sido recusado como inepto para o serviço militar, fato que o deixou muito envergonhado, começou a brincar com o revólver do irmão: “achou que não estava carregado, pressionou-o com a mão esquerda contra a têmpora esquerda (não é canhoto), pôs o dedo no gatilho e um tiro foi disparado”. (Freud, S. 1901, p. 185). Ferenczi acredita que “sob os efeitos deprimentes de seu desafortunado caso de amor”, queria “esquecer tudo no exército” e vendo-se sem esperança: “entregou-se a uma tentativa inconsciente de suicídio”. Um terceiro caso é descrito por J. Stärcke, e garantido por Freud como um “ato sacrifical”:
Uma senhora cujo genro tinha de partir para Alemanha a fim de prestar serviço militar escaldou o pé nas seguintes circunstâncias: sua filha esperava dar à luz em breve e, naturalmente, os pensamentos voltados para os perigos da guerra não deixavam a família muito bem-humorada. No dia anterior á partida, ela convidou o genro e a filha para jantarem. Ela mesma preparou a refeição na cozinha, não sem antes, estranhamente, trocar suas botas altas de amarrar, providas de palmilha corretiva, com as quais andava comodamente e que costumava usar em casa, por um par de chinelos do marido, grandes demais e abertos em cima. Ao tirar do fogo uma panela grande de sopa fervendo, deixou-a cair e assim fez uma queimadura bastante séria num dos pés, sobretudo no peito do pé, que não estava protegido pelo chinelo aberto. – Naturalmente, todos atribuíram esse acidente a seu compreensível ‘nervosismo’. Nos primeiros dias desse holocausto, ela teve um cuidado especial ao manipular coisas quentes, mas isso não a impediu, alguns dias depois, de queimar um caldo fervente. (Freud, S. 1901/1996. p.187).
No fim desse parágrafo, há uma nota de rodapé que faz referência a um último caso sobre uma noiva que se deixa atropelar no dia que marcaria o seu casamento, por fidelidade ao primeiro noivo morto na guerra. O fato foi contado pelo segundo noivo que havia lido A Psicopatologia da vida Cotidiana e encontrado aí explicação para o suicídio inconsciente da noiva. Deixa-se claro, que não teve comentário de Freud, que, aliás, nesse como nos outros casos, pretendia apenas demonstrar a existência de uma eficácia inconsciente.

Ana Lúcia Barcellos Serrão 
          Psicanalista

terça-feira, 6 de julho de 2010

Sobre a transferência

 CONFERÊNCIA XXVII – TRANSFERÊNCIA

(Freud 1915-17)

Freud deu nome de transferência à conferência em que abordou a prática, a clínica, a qual se referia como terapia. Não poderia encerrar a série de conferências sem incluir esse fato novo. Freud toma a transferência como novidade, surpresa.

Ele levanta então a seguinte questão: onde os fatores do adoecer darão lugar a influência terapêutica?

A transferência é considerada por ele como característica universal, já que “ deve-se atribuir a toda pessoa normal uma capacidade de dirigir catexias libidinais às pessoas.” A tendência a transferência nos neuróticos é apenas um aumento extraordinário dessa característica.

A transferência é tratada por Freud nessa conferência como um instrumento na estratégia de remover a resistência, não sendo mais eficaz por meio de sugestão ou recomendação. Remover as resistências para tornar consciente o inconsciente.

A resistência deriva de uma repressão que tentamos solucionar ou que se realizou anteriormente. Há um conflito entre essa repressão e a libido, onde o sintoma encontra sua via. Freud nos diz que a solução não seria um desses poderes predominar, mas que eles possam lutar em pé de igualdade, como se ele estivesse localizando um ponto na interseção desse conflito.

O mesmo faz quando coloca o conflito no âmbito social, que no contexto da época, a moralidade predominava. Ele aponta que mesmo se o indivíduo vivesse em uma sociedade com total liberdade sexual (o que podemos facilmente transpor para os dias de hoje), ainda assim o sintoma persistiria, pois não é o fato de uma das tendências triunfar sobre a outra que o conflito seria solucionado. Constatamos essa suposição de Freud nos sintomas modernos – ansiedades, pânicos e outros. O sintoma encontrou caminho mesmo em uma sociedade mais liberal.

Apesar de Freud tentar circunscrever todos os pontos desse fato novo – a transferência – ele se depara com um impasse, algo impossível de saber acerca dela: as neuroses narcísicas. “Em geral, um homem só é acessível, desde que seja capaz de uma catexia libidinal de objetos; e temos boas razões para reconhecer e temer no montante de seu narcisismo uma barreira contra a possibilidade de ser influenciado até mesmo pela melhor técnica analítica.” Ainda conclui que mesmo mediante o auxílio da transferência, os esforços terapêuticos não tem êxito nas neuroses narcísicas.

Para concluir, ressaltamos no texto o momento em que Freud desloca o trabalho de recordações e a atenção aos sintomas para o fundo da cena, afirmando: “Não é incorreto dizer que já não mais nos ocupamos da doença anterior do paciente, e sim de uma neurose recentemente criada e transformada, que assumiu o lugar da anterior.” Chamamos essa passagem sobre a neurose de transferência de ficção da psicanálise.

Marcia Müller Garcez
Psicanalista

quinta-feira, 6 de agosto de 2009

Psicanálise aplicada à terapêutica: O plano de saúde

O trabalho consiste em abordar a atual discussão sobre a psicanálise aplicada à terapêutica e seus desdobramentos na prática tomados a partir da clínica do plano de saúde. Essa nova modalidade de atendimento, legitimada pelo discurso jurídico para abarcar o sofrimento da civilização contemporânea traz novas reflexões sobre o uso da psicanálise e sobre o desejo do analista frente às demandas sociais. Proposições psicanalíticas - partindo das obras de Freud e Lacan - contribuem para abordar a questão do pagamento e do manejo do tempo disponibilizado pelos planos de saúde.
Como sustentar os princípios da psicanálise sem cair na falsa promessa de cura e como manejar os dispositivos institucionais oferecidos são assuntos tocados nesse trabalho que só pôde ser construído a partir do encontro do analista com essa modalidade clínica.
A nova aplicação da lei sobre os planos de saúde obriga a exercer cobertura também para os tratamentos psicológicos, mas não basta apenas cumprir tal determinação, é preciso contextualizar cada prática - independente da corrente teórica – às exigências institucionais das operadoras de saúde.
O trabalho ainda ressalta os cuidados necessários ao se tentar cumprir tais exigências institucionais. Os princípios éticos devem ser preservados dentro do que cada um se autoriza na sua profissão e para isso é preciso sustentá-los frente ao que é determinado e exigido.
O que trago nessa apresentação, é um pouco dessa experiência, conciliando a prática desse exercício dentro da abordagem psicanalítica. Acredito assim, estar diluindo barreiras entre os variados tipos de abordagens, além de ofertar e dividir as dificuldades e vantagens dessa novidade em nossa atuação profissional.

Resumo do trabalho apresentado por Marcia Müller Garcez na III Mostra Regional de Práticas em Psicologia - CRP RJ (Julho 2009)

terça-feira, 16 de dezembro de 2008

A clínica do plano de saúde

A partir deste depoimento, venho descrever uma experiência singular, mas que considero de alta importância para a psicanálise nos dias atuais.
Hoje se discute a psicanálise aplicada em diversos campos de atuação, desde quando esta “vai à rua” inserida em hospitais, escolas e instituições em geral até quando é aplicada na própria Escola de psicanalistas. Fato polêmico, uma vez que nesta aplicação, delimita-se o tempo de análise previamente.
Mas, o que trago para acrescentar, a meu ver, neste hall de psicanálise aplicada é a clínica de plano de saúde que também se trata de um novo espaço no qual se aplica a psicanálise, porém não se assemelha com as anteriormente mencionadas.
Nesta nova modalidade de clínica, o indivíduo chega com um tempo determinado pelo plano de saúde, porém, logo no primeiro contato com o analista, fica esclarecido que este é o tempo que ele poderá desfrutar do plano, mas que o tempo de análise será indeterminado cronologicamente e ele mesmo deverá, se desejar, se responsabilizar pelo curso de sua análise.
Abre-se uma porta para aplicação e extensão da psicanálise e caberá ao analista e ao sujeito em análise enganchar-se no processo. Esse tempo, determinado pela lei sobre os planos de saúde em um mínimo de 12 sessões ao ano, pode ser distribuído semanalmente equivalendo a aproximadamente 3 meses de trabalho ou alternado com sessões particulares ficando esse critério e opção para o sujeito, de modo com que ele tenha de se a ver com a administração da sua análise e das sessões a que tem direito.
A partir disso, nos deparamos com uma nova demanda ou ausência dela. Os indivíduos que chegam, por vezes estão curiosos ou precisavam desse “estímulo” para chegar, mas por outras e muitas outras, só querem usufruir do plano como um modo de gozo. O analista será apenas mais um especialista da lista que eles percorrem. Caberá ao analista mais uma vez se prestar ao lugar de objeto que lhe cabe e saber ouvir de cada um a que foi. Entrarão em jogo os pontos cruciais da psicanálise como a transferência, e o fato de o analista poder escutar quando o sujeito for para gozar e não optar por pagar sua análise.
No entanto, as portas se abrem para muitos que estavam em casa supervisionados e medicados pela clínica psiquiátrica e uma gama de material clínico se oferece ao analista que mergulha nessa clínica que se presta a um saber-fazer com isso.
Inserir um terceiro que sustenta a análise para o indivíduo e depois poder convocá-lo ao trabalho, como se passando das entrevistas iniciais à análise propriamente dita.
Algumas correntes da psicologia questionaram junto ao órgão regional, CRP, o fato das sessões serem limitadas, alegando que os planos deveriam cobrir o tratamento integralmente. No entanto, isso não é questionamento para a psicanálise, uma vez que a questão do pagamento está intimamente ligada ao processo analítico. Outro ponto seria a dificuldade em determinar quem teria o direito e por quanto tempo, o que nos remeteria a uma prática seletiva e de diagnósticos.
Este depoimento vem favorecer a prática atual que não exime o sujeito da responsabilidade de seu tratamento e ainda o aproxima dessa possibilidade.
Nós, analistas temos que escutar para além da psicanálise pura, nos consultórios, para podermos preservá-la. Para isso, temos que nos oferecer ao real que se apresenta e encontrar o manejo para cada prática que surja, uma vez que os tempos modernos se apresentam com novas roupagens e novas modalidades de atendimento para dar conta dessa velocidade.
Saber manejar com o tempo cronológico sem perder o tempo lógico defendido por Lacan que nos trouxe um novo olhar para a clínica.
A clínica do plano de saúde tem sido um exemplo desse manejo, um tempo cronológico é oferecido ao indivíduo ou usuário, mas a ele abre-se uma possibilidade de saber para além disso, calcado em um tempo próprio e singular.
A psicanálise passa a acolher a emergência social sem perder seus pontos de ancoragem e seu manejo clínico, aquele nosso conhecido da psicanálise pura.


16/12/08
Marcia Muller Garcez
Psicanalista

terça-feira, 12 de fevereiro de 2008

O que é ensinar? Uma interlocução entre Psicanálise e Aprendizagem Inventiva[1]

A Educação é um universo de possibilidades que vai desde a discussão sobre sua essência até a tentativa de definir o que deve se ensinar. Da forma ao conteúdo, existe uma dispersão que necessita de referência, para escapar da imensidão e assim ser viabilizada como saber neste campo.
Nesta busca incansável de suprir a necessidade de ensinar, ou ensinar a ensinar, a educação se assemelha a ciência, criando novas didáticas a cada dia para dar conta do que é impossível.
Cada vez mais, a didática se afasta de ser uma arte e passa a não só se assemelhar a ciência, mas também pertencer a ela.
Conforme o pensamento científico transformou-se em modelo da produção de conhecimento, a educação – buscando os mesmos padrões – transformou-se em metodologia. Cada vez mais, os conteúdos a serem ensinados provêm do domínio do conhecimento científico.
A educação está sempre ensinando o que é científico. Onde está o ensino da ética, da estética, teologia e outros ensinos de humanidades? Quando estes aparecem no currículo, estão sempre vinculados a ciência.
Se buscarmos uma nova concepção de aprendizagem, quebrando o paradigma da ciência moderna e das correntes da psicologia cognitiva, encontramos um olhar para o lugar da invenção. Um ponto subjetivo em meio a regras e determinismos.
Neste sentido, aprender não significa uma simples percepção e conhecimento de um objeto, no qual o sujeito e o objeto já estão pré-definidos. Há um processo neste intermédio que sobre a ótica temporal, faz com que a aprendizagem não se limite ao conhecimento do objeto, mas que haja uma problematização.
A colocação de um problema que faz com que em um processo de devir – podemos dizer devir filosófico – a invenção tenha lugar. Não se trata apenas de solucionar problemas, mas de inventá-los.
Assim entendemos, como em um processo de devir, de invenção - divergindo da ciência determinista – um músico compõe, um escultor esculpi, um pintor pinta, um apreciador absorve a arte e um professor ensina.
Esses momentos de invenção não se encontram nas explicações científicas nem nas ciências psicológicas. Só aparecem como derivações ou habilidades da inteligência.
A psicanálise traz contribuições para esta questão, a partir do ponto em que também se difere de uma ciência que quer apresentar respostas e soluções prontas.
A partir do conceito de inconsciente estruturado como linguagem, também aponta para o lugar da subjetividade.
Sob esse prisma, a psicanálise traz reflexões sobre a transmissão e o ensino. Acrescenta que a educação assume a ciência como conteúdo privilegiado para a transmissão do saber e ao fazê-lo, esse discurso passará a condicionar as hipóteses sobre a transmissão do conhecimento.
No entanto, na visão psicanalítica, esse discurso não consegue enunciar totalmente a transmissão, sempre permanecerá uma “sobra” que não se conseguirá teorizar. Esse resto se apresentará como dificuldade de se ensinar tudo a todos. Escapará algo como dedicação e amor que não se ensina didaticamente. Assim, a psicanálise considera que na arte de educar há algo que só pode ser pensado na categoria do impossível.
Esse impossível não está nos moldes da ciência moderna, onde não existem impossibilidades, onde o professor tudo sabe e o aluno aprende com o professor.
A partir dessas duas teorias – Aprendizagem inventiva e psicanálise – proponho uma reflexão sobre o que é ensinar.
Em ambas as teorias, há um apontamento para o subjetivo (descartado pela ciência) e a introdução da questão do tempo como algo de imprevisível neste processo.
Se a arte de educar é da ordem do impossível e não pode aprisionar-se ao modo científico, como se ensina?
Não irei oferecer respostas, já que estas não existem nem para a ciência que se encarrega de tê-las, mas sim propor reflexões na contramão destas respostas , embarcando nas teorias em que ensinar e aprender são processos inacabáveis.


Márcia Muller – Educadora e Psicanalista


[1] Teoria criada por Virgínia Kastrup, doutora em Psicologia pela PUC-SP e professora do Programa de Pós-graduação do Instituto de Psicologia da UFRJ.

quarta-feira, 24 de outubro de 2007

Sobre o termo lacaniano "falasser"

O sintoma como acontecimento de corpo
Como vocês sabem, esta definição de Lacan aparece apenas uma vez, em seu breve escrito “Joyce, o Sintoma” e foi trabalhada por Miller in extenso em seu curso A experiência do real no tratamento psicanalítico. Resumidamente, podemos dizer que o falasser não é um corpo – como ocorre no reino animal, pois o animal está totalmente identificado a seu corpo – mas ele tem um corpo. Ter um corpo e não ser um corpo quer dizer que ele é também sujeito, portanto afetado pela falta-a-ser que introduz o significante que divide seu ser e seu corpo. Insisto: para ter sintomas, é preciso ter um corpo e não ser um corpo. Os sintomas surgem, na última versão de Lacan, do acontecimento traumático que implica a incidência da alíngua – desses S1 sozinhos, que não formam sistema ou estrutura – no corpo, o que pode ser resumido na fórmula: “o significante é causa de gozo”, ou seja, causa de efeitos que são afetos. Quer dizer, o significante não tem somente efeitos de significado – o próprio sujeito é um desses efeitos –, mas também efeitos de gozo num corpo. Assim, a alíngua veicula o traumático (troumatique) da não relação sexual, deixando efeitos duradouros, marcas desse encontro sempre traumático do qual algo não cessará de se escrever, não cessará de se repetir. É o que diz Miller: “A não relação sexual é o acontecimento lacaniano no sentido do trauma, esse que deixa marcas em cada um – não como sujeito, mas como falante – no corpo, marcas que são sintoma e afeto”. Pensando o final de análise, mas também a finalização de certos ciclos terapêuticos, o fundamental é conseguir provocar um deslocamento em relação à repetição, para que ela não seja a simples reiteração, a repetição cega do mesmo, mas traga algo novo. Isso supõe que não há saída do sintoma. Entramos pelo sintoma, saímos pelo sintoma, morremos com o sintoma – esta é sua nobreza... Como disse, essa caracterização do sintoma corresponde ao sexto paradigma do gozo, o da “não relação”, que tem como ponto de partida o Seminário 20: Mais, ainda. Trata-se da não relação sexual entre Um e o Outro, o que implica que há gozo de um corpo vivo em disjunção com o Outro. Neste paradigma, todos os termos que garantiam a conjunção entre Um e o Outro (O Outro, o Nome-do-Pai, o falo) se revelam como simples semblantes conectores. Já não há estrutura transcendental prévia e autônoma que determine as condições da experiência. Passamos à primazia da prática, na qual é preciso determinar de que maneira se produz, em cada um, a suplência da relação entre Um e o Outro. Miller diz que há duas formas de suprir o laço sexual, frente à inexistência da relação com o Outro: segundo a rotina ou segundo a invenção. A rotina é apegar-se ao Nome-do-Pai, ao universal da cultura, enquanto a invenção é criar algo novo. Entramos aqui na temática das psicoses não desencadeadas. Creio que estas duas formas são cruciais para situar a incidência desta nova perspectiva do sintoma no diagnóstico.

(texto retirado da revista da Escola Brasileira de Psicanálise - Latusa nº 21)

domingo, 27 de maio de 2007

Autismo

Conhecer crianças nos faz entrar em contato com uma multiplicidade de comportamentos sociais e pessoais. Faz-nos repensar conceitos como razão, equilíbrio, afeto, fragilidade, força, alegria e principalmente desafio. Ao nos dispormos a trabalhar com elas é imprescindível que tenhamos noção de como elas se desenvolvem organicamente, de como amadurecem nos aspectos físico e emocional. Na dependência e inter-relação do que é visível, o que se sabe e o que se descobre.
Ao escrever sobre Autismo - palavra que deriva de autos que significa o próprio indivíduo, vamos falar sobre uma Síndrome que interfere no desenvolvimento da criança alterando de forma contundente a inter-relação dela com os que a cercam.
Inicialmente o termo foi usado por Leo Kanner, psiquiatra infantil, em 1943, com uma descrição detalhada de alguns casos e mais tarde por Hans Aspeger, na Alemanha. A maior diferença entre as duas descrições seria o uso da comunicação oral, presente na descrição de Asperger. Desde então foram feitos muitos estudos e classificações. A escola Americana define basicamente como um distúrbio de desenvolvimento afetando várias áreas do comportamento de forma permanente e a Escola Francesa o define como uma desorganização da personalidade – uma psicose.
Atualmente tem sido considerado como um grave distúrbio do comportamento dentro dos Transtornos Globais do Desenvolvimento (TGD) e que traz uma enorme solidão e imensa sensação de desamparo aos pais.
Estamos descrevendo uma criança que tem parte do desenvolvimento, o motor, com poucas alterações e muito próximo do de outras crianças de sua idade e a outra parte, a emocional, seriamente atingida. Há um desvio em sua comunicação e linguagem. Deve-se desfazer a imagem cristalizada de uma criança com olhar perdido e sem fixação se balançando ou com uma fala estranha e movimentos repetidos. Essas são algumas características freqüentes. Há uma diversidade de comportamentos que aparecem e se desenvolvem relacionados à organização biológica, psíquica e social que podem e devem ser acompanhadas e analisadas não se desprezando a individualidade dessas crianças e as particularidades de seu lar.
A Fonoaudiologia ocupa-se em avaliar a linguagem esclarecendo, classificando e caracterizando os comportamentos apresentados e tentando construir uma maneira de torná-la capaz de atribuir significado e intenção aos seus sentimentos e a compreender ao máximo os que a rodeiam. São valorizadas atividades lúdicas e prazerosas para a criança e se utilizam todas as formas alternativas de comunicação como olhares, expressões, gestos, figuras, músicas... Tenta construir um amplo movimento de troca entre os familiares e a escola objetivando integrarem seus conhecimentos e fortalecerem seus elos .
É importante que tratamentos paralelos aconteçam buscando a melhor forma de ajudar a criança a conseguir partilhar seu mundo respeitando sua individualidade e potencialidade.

Heloisa Matheus Campeão Leite
Fonoaudióloga – Especialista em Linguagem