PONTUAÇÕES ACERCA DO
SUICÍDIO
O ser humano vive de
modo ambivalente os mistérios da vida e da morte. Os psicanalistas devem
familiarizar-se com o par de antitético vida e morte, que empresta cores vivas
ao pano de fundo, no proscênio do encontro com seus pacientes.
O medo da morte,
sentimento nodal que se origina a angústia humana desperta nos estudiosos (onde
se incluem filósofos, poetas e psiquiatras) ao mesmo tempo inegável fascínio
pelo assunto, resultando suas obras de incontestável utilidade a quem se propõe
tratar ou promover saúde a pessoas à beira da descompensação.
Entre as
características do homem, apresenta-se a conscientização de que um dia
falecerá, resultando diferentes esforços para prolongar ou abreviar a vida.
O suicídio tem em sua
gênese diferentes motivos. Vale enfatizar o sofrimento em que se agiganta a
dor; o avassalamento pela culpa; perdas irreparáveis; o desmoronamento do mundo
idealizado, que se transforma e engrossa o universo perseguidor.
Estudar o fenômeno do
suicídio é pensar, a princípio, na interrupção do ciclo vital da pessoa humana
de forma auto-inflingida. É um ato autodestrutivo, sua ocorrência se dá nas
mais variadas faixas etárias e nas diferentes culturas, sendo registrado desde
os primórdios, na Antigüidade, na era cristã, na renascença e na
contemporaneidade.
1. UM BREVE HISTÓRICO
A palavra suicídio é
derivada do latim: sui (si) e caedes (matança), e na sua passagem para o
português manteve o significado de “morte
voluntária”, mas teve incorporado ao significado o sentido de crime contra
si mesmo.
O ato de matar a si
mesmo ou até mesmo a outrem sempre esteve presente na história da humanidade
desde os tempos mais remotos. O suicídio foi adquirindo significado e função de
acordo com a época e civilização em que este ato de dar fim à própria vida foi
acontecendo.
Embora este trabalho
seja em psicanálise, não poderia deixar de citar Émile Durkhein, o fundador da
sociologia e autor do livro O Suicídio, de 1897, concluiu que o ato de matar a
si mesmo é um fenômeno social e não se deve à teoria da hereditariedade,
conforme se acreditava, na época. Este estudo permitiu que o suicídio passasse
a ser considerado como uma patologia. Durkhein considera que o suicídio como
manifestação de um ato individual é, em sua essência, social, na medida em que
o homem vive em sociedade e está atravessado por tudo aquilo que ela produz;
sua individualidade é uma produção cultural construída na sua relação com os
diversos produtos desta cultura e define o suicídio como “todo ato positivo ou negativo praticado pela própria vítima, desde que
a mesma saiba dever produzir este resultado”. A partir do século XIX o
suicídio foi então encarado como um ato solitário que difere da vida em
sociedade, normalmente interpretado como sendo um ato produzido por um
indivíduo descontente.
2. CONSIDERAÇÕES SOBRE
O SUICÍDIO EM PSICANÁLISE E A
PROBLEMÁTICA DA MELANCOLIA
No tocante ao suicídio,
Freud participou, em 1910, do primeiro simpósio sobre suicídio de escolares
secundaristas. Nesta oportunidade, ele diz que as escolas devem conseguir mais
do que não compelir seus alunos ao suicídio; devem lhes dar o desejo de viver,
oferecendo-lhes apoio e amparo numa época da vida em que as condições de seu
desenvolvimento os levam a afrouxar seus vínculos parentais.
Ao término do simpósio,
Freud esclarece que apesar do rico material exposto, não havia chegado a uma
decisão sobre o problema. Manifesta curiosidade em saber como seria possível
para o suicida driblar a poderosa pulsão da vida? Afirma então que isto só é possível com o
auxílio de uma “libido desiludida”,
ou, se o ego renunciar à sua autopreservação, por seus próprios motivos
egoístas. Apesar de Freud, nesse breve artigo não explicitar o que tinha em
mente ao se referir a uma “libido
desiludida”, acreditamos que tal expressão se esclarecerá em 1917 no texto
Luto e Melancolia, importante artigo, no qual ele acentua estar presente na
base da melancolia um forte desapontamento com relação ao objeto.
Desapontamento esse que implica uma retirada da libido desse objeto. Nesse
contexto, chega a se referir a essa situação dizendo que “a relação objetal foi destroçada”. (Freud, S. 1917, p. 254).
De início, Freud propõe
certa aproximação entre a melancolia e a anestesia (sexual) tecendo alguns
curiosos comentários sobre essa relação. Não nos aprofundaremos nessas
articulações, porém gostaríamos destacar a correlação apontada por ele, entre
melancolia e anestesia, ou seja, entre a melancolia e uma certa perda de
sensibilidade.
Logo a seguir Freud
propõe uma correspondência entre a melancolia e o luto, afirmando: “O afeto correspondente à melancolia é o
luto, ou seja, desejo de recuperar algo que foi perdido”. (Freud, S.
1895/1996, p.247). Vê-se, pois de saída
que em ambos os casos trata-se de uma reação à perda.
Tomando o luto como
exemplo para se pensar melancolia, Freud acrescenta: “deve tratar-se de uma perda – uma perda na vida pulsional” (Freud,
S. 1895/1996, p. 247). Ainda nesse breve rascunho, propõe uma outra articulação
para a melancolia. Dessa vez ele a aproxima da anorexia, ou seja, da perda do
apetite, que nesse contexto, traduz em termos de perda da libido, lançando a
idéia de que “a melancolia consiste em
luto por perda da libido” (Freud, S. 1895/1996, p. 247). Freud conclui este
artigo afirmando que na melancolia ocorre uma perda da libido através de um
buraco na esfera psíquica. A perda da excitação provoca uma “retração para dentro” (Freud, S.
1895/1996, p. 252) na esfera psíquica sugando a excitação. A retirada da libido
vai operar encobrindo, como uma “ferida”,
num modo semelhante ao da dor.
Ora o que Freud nos diz
é que o sujeito ao queixar-se da dor, desvia-se do verdadeiro foco que lhe
causa sofrimento, já que essa retirada o impede de realizar associações.
Para este trabalho, o
que realmente interessa destacar é a “perda
do apetite”, entendida como perda da libido, e a “perda da sensibilidade”, assinaladas por Freud. Afinal, essas duas
características que apesar de não esgotarem a problemática do suicídio, estão
diretamente associadas a ela no sentido metafórico: “falta de gosto pela vida”.
A teoria freudiana toda
vez que compara a melancolia com o afeto normal do luto, evidencia que em ambos
trata-se da perda de um ente querido ou da perda de alguma abstração que
ocupava um lugar idealizado. Em algumas pessoas, as mesmas influências produzem
melancolia em vez de luto, isso leva Freud a suspeitar de que essas pessoas
possuem alguma disposição patológica anterior que faz com que a perda adquira
proporções tão sérias.
No tocante a essas duas
reações face à perda, vale precisar que quando a libido está investida em algum
objeto amado e este por alguma razão é perdido, é preciso que haja um dispêndio
de energia e tempo para ocorrer o desligamento desse investimento. Todo esse
processo de desligamento tem como objetivo prolongar, durante certo tempo, a
existência do objeto perdido. Em se tratando do luto, a libido vinculada ao
objeto paulatinamente desligar-se-á, e ao final o ego estará novamente
capacitado a relançar seus investimentos. Já a melancolia apresenta outras
características que Freud resume nos seguintes termos:
Os traços mentais distintivos da melancolia são um
desânimo profundamente penoso, a cessação de interesse pelo mundo externo, a
perda da capacidade de amar, a inibição de toda e qualquer atividade, e uma
diminuição dos sentimentos de auto-estima, a ponto de encontrar expressão em
auto-recriminação e auto-envilecimento, culminando numa expectativa delirante
de punição. (Freud, S. 1917/1996, p.250).
Em Luto e Melancolia de
1917, Freud faz uma teoria bastante complexa destacando sobre a melancolia a
problemática da perda do objeto. Neste texto, logo de saída, diz que para ele o
sonho está para a paranóia assim como o luto está para a melancolia. Em ambos
os quadros clínicos encontram-se uma forte inibição, acompanhada de uma perda
de interesse pelo mundo externo, efeito do retraimento dos investimentos
libidinais. Sendo que a inibição melancólica se revela mais enigmática do que a
do luto, pois na melancolia não se pode ver com nitidez o que absorve tão
completamente o sujeito. Ainda marcando uma diferença entre o luto e a
melancolia, Freud assinala que na melancolia se faz presente uma extraordinária
diminuição da auto-estima, ou seja, um notável empobrecimento do próprio ego.
No processo do luto é o mundo que se torna pobre e vazio, já na dinâmica da
melancolia é o próprio ego que se revela esvaziado.
Freud enfatiza que no
quadro do luto, a perturbação da auto-estima está ausente. Nele a inibição e a
circunscrição do ego estão diretamente relacionados à perda de alguém (ou algo)
que era alvo de um amor muito idealizado.
Para Freud o processo
da melancolia se desdobra em três etapas. Primeiro haveria a escolha de um
determinado objeto, um vínculo erótico sendo estabelecido entre o sujeito e o
objeto idealizado; depois sob influência de uma forte decepção, essa relação
fica abalada e o objeto é perdido dando lugar uma profunda hostilidade. Em
reação a essa perda, ao invés da libido abandonar o objeto e buscar um
investimento, ela se retrai para o ego, que enigmaticamente se identifica com o
objeto outrora amado, doravante odiado.
Na escuta dos pacientes
melancólicos Freud percebeu que apesar de ter havido uma perda relativa ao
objeto, o que o paciente relata “aponta
para uma perda relativa a seu próprio ego” S. 1917/1996, p.253. Calcado nessas
constatações Freud postula que na melancolia:
A sombra do objeto caiu sobre o ego, e este pode, daí
por diante, ser julgado por um agente especial, como se fosse um objeto
abandonado. Dessa forma, uma perda objetal se transformou numa perda do ego, e
o conflito entre o ego e a pessoa amada, numa separação entre atividade crítica
do ego e o ego continua alterado pela identificação. (Freud, S. 1917/1996,
p.254-5).
As auto-recriminações
feitas ao ego, na verdade, são dirigidas ao objeto e significam a vingança do
ego sobre ele. Identificação e ambivalência estão, portanto juntas desde o
início.
Uma parte do ego se
revela modificada pela introjeção e contém o objeto perdido, enquanto uma outra
parte, o ideal de ego, exerce as funções de censura, consciência moral e
auto-observação; revelando aí, uma divisão do ego. O desejo de vingança e o
ódio em relação ao objeto perdido podem expressar-se desviados para o ego do
próprio indivíduo. À medida que esse ódio se desenvolve, pode surgir o desejo
de matar esse objeto enquistado no ego, o
que pode até mesmo acarretar o
suicídio do melancólico.
Segundo Freud quando o
indivíduo chega a se matar, está, na realidade, matando em si o objeto um dia
amado, mas que devido a uma forte decepção se tornou alvo de uma hostilidade.
Cabe ressaltar que no âmbito da melancolia Freud situa o suicídio como um
desdobramento oriundo da identificação do ego com o objeto perdido, objeto esse
que sofreu uma transformação na qual passou de objeto idealizado para um objeto
odiado, ou seja: a catexia erótica do melancólico em relação ao objeto tem dois
caminhos: enquanto uma parte retorna para identificação, a outra é influenciada
pelo conflito devido à ambivalência, voltando à etapa do sadismo. Uma vez
estando esse objeto enquistado, no eu do indivíduo, e ser a esse objeto, que é
a hostilidade endereçada, que se pode dizer que o suicídio é na verdade um
homicídio: ele tenta matar o outro em si.
Freud diz: “de há muito, é verdade, sabemos que nenhum neurótico
abriga pensamentos de suicídio que não consistam em impulsos assassinos contra
os outros, que ele volta contra si mesmo”. (Freud, S. 1917/1996, p. 257).
É importante ressaltar
que nesta época ele não havia desenvolvido a teoria da “pulsão de morte”, supunha que tudo era regido pelo “princípio de prazer”. Só em 1920, quando
publica o artigo “Além do Princípio de
Prazer”, é que Freud desenvolve sobre uma dimensão pulsional distinta ao
princípio do prazer. Neste texto ele postula uma nova dualidade pulsional:
pulsão de vida e pulsão de morte. Dessa forma a pulsão de
morte torna-se também o princípio da vida psíquica e afirma que:
A tendência dominante da vida mental e, talvez da vida
nervosa em geral, é o esforço para reduzir, para manter constante ou para
remover a tensão interna devida aos estímulos (o ‘princípio do Nirvana’ para
tomar de empréstimo uma expressão de Bárbara Low), tendência que encontra
expressão no princípio de prazer, e o reconhecimento desse fato constitui uma
de nossas mais fortes razões para acreditar na existência dos instintos de
morte. (Freud, S. 1920/1996. p. 66)
Sendo assim, ele
identifica a pulsão de morte ao princípio de Nirvana e encontra no princípio de
prazer uma expressão desse princípio agora fusionado a pulsão de vida. Isto é,
uma energia que no início era livre que buscava a descarga total deve ser “dominada” e “contida” por meio de um processo que Freud denominou ligação, sob
pena de levar o pequeno ser, de forma imediata, à morte. Logo, as pulsões de
morte existiriam concomitantemente desde o início, e associadas, as pulsões de
vida que impediriam sua plena manifestação:
Se, portanto, não quisermos abandonar a hipótese das
pulsões de morte, temos de supor que estão associadas, desde o início, com as
pulsões de vida. Deve-se, porém, admitir que, nesse caso, estaremos trabalhando
com uma equação de duas quantidades desconhecidas. (Freud, S. 1920/1996, p.
67).
Num momento mais
avançado, revê sua teoria e reconhece que na melancolia o ego admite sua culpa
sem objeção alguma, submetendo-se ao castigo porque está identificado com o
objeto. O superego dirige sua ira com violência contra o ego como se tivesse se
apossado de todo o sadismo disponível na pessoa. Sadicamente o instinto de
morte acentuou-se no superego e voltou-se contra o ego. O que passa a
influenciar o superego é a cultura do instinto de morte, que obtém êxito em
impulsioná-lo à morte caso ele não se afaste a tempo para a mania. De acordo com Freud, o
medo da morte só tem uma explicação:
O próprio ego se abandona porque se sente odiado e
abandonado pelo superego, ao invés de amado. Para o ego, portanto, viver
significa o mesmo que ser amado – ser amado pelo superego, que aqui, mais uma
vez, aparece como representante do id. O superego preenche a mesma função de
proteger e salvar que, em épocas anteriores, foi preenchida pelo pai e,
posteriormente, pela Providência ou Destino. (Freud, S. 1923/1996. p.70).
No que se refere ao tema
do suicídio, nos interessa pensar quais fatores determinam que alguns
indivíduos apesar de todas as dificuldades que a vida apresenta, conseguem se
sustentarem psiquicamente, enquanto outros, no auge da vida, se desestruturam e
chegam ao suicídio. Quantos lutam pela vida e quantos outros buscam a morte! A
esse respeito cabe indagar o que a psicanálise pode fazer por essas pessoas?
Lacan nos ajuda a
esclarecer alguma questão desse assunto tão enigmático como o suicídio. E em seu Seminário X,
1962/ 1963, “A Angústia”, propôs um
conceito diferenciado para ato, acting out e passagem ao ato. O acting out é alguma
coisa que se mostra principalmente na conduta do sujeito que, segundo Lacan,
deve ser observada. Além de não falar em seu nome, o sujeito não sabe o que
está mostrando, nem tampouco reconhece o sentido daquilo que lhe é desvelado. É
ao analista, que é conferido o trabalho de decifrar, de interpretar os
argumentos.
Assim, o acting out é
uma transferência, ainda que o sujeito nada demonstre. Entretanto, algo escapa
ao recalque sem que seja possível alguma lembrança. É, portanto, uma demanda de
simbolização onde o sujeito, em busca da verdade, realiza o que não pode ser
dito por falta de simbolização.
No percurso de uma
análise, o acting out é sempre sinal de que a condução do tratamento está, por
causa do analista, em um impasse, revelando o fracasso deste, porém, não
necessariamente, sua incompetência. Não deve ser interpretado, mas, modificando
sua posição transferencial, ou seja, sua escuta, o analista permite ao paciente
mudar sua posição subjetiva e superar essa conduta de demonstração. Em seu Seminário sobre
angústia, Lacan assim define o acting out:
O acting out é
essencialmente, mostra, mostruário velado sem dúvida, mas que não é velado
senão para nós como sujeito, enquanto isso fala, enquanto isso poderia ser verdadeiro,
não velado em si, visível ao contrário, maximamente, e por isso, em um certo
registro invisível. Mostrando sua causa, é esse resto, é sua queda, é o que cai
no negócio que é o essencial de ser mostrado.
(Lacan, 23/01/63).
Segundo Lacan, a
passagem ao ato ocorre no momento que o sujeito é confrontado radicalmente com
aquilo que ele é: como objeto para o Outro. Reage a isso impulsivamente, movido
por uma angústia incontrolada e incontrolável. Identificando-se com esse objeto
que ele é para o Outro, “deixa-se cair”.
A passagem ao ato produz-se para o sujeito no momento que este é confrontado
com o desvendamento intempestivo do objeto a que ele é para o Outro. Acontece
sempre no momento de grande embaraço e de extrema emoção, quando, para ele, é
impossível qualquer simbolização. O sujeito ejeta-se e oferece-se ao Outro como
lugar vazio do significante, como se esse outro, houvesse se tornado, para ele,
imaginariamente, encarnado, pudesse gozar com sua morte. Portanto, a passagem
ao ato é, um agir impulsivo, inconsciente, e não, um ato.
Ao contrário do acting
out, na passagem ao ato não há endereçamento a ninguém. Nenhuma interpretação é
esperada, mesmo quando ocorre em um tratamento analítico. É necessidade de
amor, de reconhecimento simbólico, sobre um fundo de desespero. Demanda feita
por um sujeito que só consegue vivenciar-se como um dejeto a evacuar. Está
situada do lado do irreversível. É sempre ultrapassagem da cena, além do real,
uma ação impulsiva da qual a mais comum consiste na defenestração. É um jogo
cego e negação.
Para Lacan o ato
constitui única possibilidade pontual para que um sujeito se inscreva
simbolicamente no real desumanizante. É, constantemente, a repulsa de uma
escolha consciente e aceita, entre a castração e a morte, uma revolta contra a
divisão do sujeito.
É importante ressaltar,
que existem algumas tentativas de suicídio que são atos de um sujeito pedindo
ajuda e que nesse sentido seriam actings. Muitas vezes a morte ocorre por um
erro de cálculo do sujeito, que talvez não estivesse tão decidido a suicidar-se
quanto poderia parecer à primeira vista. Outras tentativas seriam mais bem
entendidas como passagens ao ato, no sentido de que não há aí um endereçamento
ao Outro e sim uma queda do sujeito à posição de objeto, como assinalou Lacan
em seu seminário sobre a Angústia.
3 ALGUNS FRAGMENTOS
CLÍNICOS NA OBRA DE FREUD
Aqui vamos ilustrar com
alguns casos cujas outras motivações foram citadas por Freud para estudo.
O suicídio de um dos
pacientes de Freud, o perturba a ponto de levá-lo a cometer um clássico lapso,
nota-se a referência “depois que recebera
certa notícia”, e novamente, “lugar
onde a notícia me chegou” – ao fato,
só esclarecido em nota de rodapé do editor numa edição posterior de um primeiro
texto a respeito sobre o célebre esquecimento de Signorelli. (Freud, S.
1898/1996, p. 279).
Em 22 de setembro de
1898 (na carta 96), Freud relata a Fliess o que ocorrera e, 27 de setembro,
portanto cinco dias depois (carta 91), que enviara o artigo para publicação,
mas só três anos depois se fica sabendo que “um paciente, a quem se havia dedicado muito, suicidara-se por causa de
uma perturbação sexual incurável”. Fato este esclarecido em nota de
rodapé. (Freud, S.1901/1996, p. 279).
Já no primeiro volume,
em “Observação de um Caso Grave de
Hemianestesia em um
Homem Histérico” encontramos: “O paciente foi acusado de roubo por uma mulher, teve palpitações
violentas e, por uns quinze dias, esteve tão deprimido que pensou em suicídio”.
(Freud, S. 1886/1996).
Em outros casos
clínicos, também idéias ou ameaças de suicídio são referidas quando comunicadas
pelos pacientes e usadas como indicadores prognósticos, pois acrescidas de
avaliação de “seriedade”.
No um importante texto
chamado Psicopatologia da Vida Cotidiana, Freud dedica o capítulo VIII ao
suicídio e auto-agressões inconscientes, vemos Freud dividido entre razões
egoístas e sacrificais. Inicialmente, estas últimas são apresentadas como causa
geral de um grande número de equívocos na ação:
São atos sacrificais destinados a placar o destino,
afastar a desgraça, assim por diante(...). Dessa maneira, nossos atos falhos
nos permitem praticar todos costumes piedosos e supersticiosos que são
obrigados a evitar a luz da consciência devido à razão, agora incrédula.
(Freud, S. 1901/1996, p. 178).
Freud passa a incluir,
o suicídio e suas tentativas como equívocos da ação. Em sua obra, transcreve
alguns casos participados por outros autores que passamos a resumir:
O primeiro é de um
militar que, posteriormente à morte da mãe apresentou quadro depressivo
demonstrando ao mesmo tempo o desejo de participar de uma guerra na África, que
Freud conclui como sendo uma “intenção
consciente de suicídio, não obstante, evita o caminho direto”. (Freud, S.
1901, p. 184), e o medo de montar a cavalo, seria provocado pela intenção
inconsciente de autodestruição. Mesmo o fato de ele ter sido um “cavaleiro esplêndido”, não pôde evitar a
participação em uma corrida que lhe custou a vida.
O segundo caso
mencionado foi narrado por Ferenczi com uma tentativa inconsciente com arma de
fogo. “J. Ad” teria sido abandonado
pela amada que “por pura cobiça emigrara
para a América”, dois meses antes e, depois de ter sido recusado como
inepto para o serviço militar, fato que o deixou muito envergonhado, começou a
brincar com o revólver do irmão: “achou
que não estava carregado, pressionou-o com a mão esquerda contra a têmpora
esquerda (não é canhoto), pôs o dedo no gatilho e um tiro foi disparado”.
(Freud, S. 1901, p. 185). Ferenczi acredita que “sob os efeitos deprimentes de seu desafortunado caso de amor”,
queria “esquecer tudo no exército” e
vendo-se sem esperança: “entregou-se a
uma tentativa inconsciente de suicídio”. Um terceiro caso é
descrito por J. Stärcke, e garantido por Freud como um “ato sacrifical”:
Uma senhora cujo genro tinha de partir para Alemanha a
fim de prestar serviço militar escaldou o pé nas seguintes circunstâncias: sua
filha esperava dar à luz em breve e, naturalmente, os pensamentos voltados para
os perigos da guerra não deixavam a família muito bem-humorada. No dia anterior
á partida, ela convidou o genro e a filha para jantarem. Ela mesma preparou a
refeição na cozinha, não sem antes, estranhamente, trocar suas botas altas de
amarrar, providas de palmilha corretiva, com as quais andava comodamente e que
costumava usar em casa, por um par de chinelos do marido, grandes demais e
abertos em cima. Ao
tirar do fogo uma panela grande de sopa fervendo, deixou-a cair e assim fez uma
queimadura bastante séria num dos pés, sobretudo no peito do pé, que não estava
protegido pelo chinelo aberto. – Naturalmente, todos atribuíram esse acidente a
seu compreensível ‘nervosismo’. Nos primeiros dias desse holocausto, ela teve
um cuidado especial ao manipular coisas quentes, mas isso não a impediu, alguns
dias depois, de queimar um caldo fervente. (Freud, S. 1901/1996. p.187).
No fim desse parágrafo,
há uma nota de rodapé que faz referência a um último caso sobre uma noiva que
se deixa atropelar no dia que marcaria o seu casamento, por fidelidade ao
primeiro noivo morto na guerra. O fato foi contado pelo segundo noivo que havia
lido A Psicopatologia da vida Cotidiana e encontrado aí explicação para o
suicídio inconsciente da noiva. Deixa-se claro, que não teve comentário de
Freud, que, aliás, nesse como nos outros casos, pretendia apenas demonstrar a
existência de uma eficácia inconsciente.
Ana Lúcia Barcellos Serrão
Psicanalista